CAMD–AULA 06 (FINAL) E O QUE FICA? SOBRE PIRÂMIDES E LÂMPADAS

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    E chegamos ao nosso último post da matéria Comportamento Aplicado às Mídias Digitais (ainda tinha gente me perguntando que sigla era essa).

    E o último é exatamente sobre o sentido da expressão último. Nas nossas vidas de consumidores, estamos sempre a procurar o último: último pacote de leite produzido (senão azeda), último ônibus (senão perdemos o horário) e última inovação tecnológica (senão perdemos a moral perante a sociedade que nos rege). E esta triste constatação nos leva a crer que estamos numa espécie de Faroeste da tecnologia. Sexta feira: você senta numa mesa de bar com alguns colegas, e todos ao se sentar à mesa sacam seus celulares (afinal, incomoda sentar-se com eles em nossos bolsos, e se alguém ligar, rapidamente podemos atender). Uma vez todos reunidos, alguns entendem esta mesa como um verdadeiro panorama do progresso do indivíduo: se o celular é novo, o cara está se dando bem na vida (mesmo que não esteja); se é daqueles que se compram por dez reais ou se ganha de graça em promoções o cara é fracassado, e se ele se defende dizendo que não liga para essas coisas, a coisa piora, é literalmente o pobre se defendendo sob a alcunha de descolado. Mas a função primordial do celular não é apenas telefonar? O que faz um indivíduo melhor que o outro pelo que ele possui? E quem disse que possuir um celular de última geração significa que o proprietário o domina (na maioria das vezes, proprietários de smartphones mal sabem as funções que os caros aparelhos têm).

    Ou seja, voltamos ao conceito da máquina como extensão do intelecto, e não próprio; de que máquinas servem para nos servir, e não sermos servos; e que não podemos nos contentar em ser um plugin da máquina, afinal, ela é uma mera ferramenta para potencializar nossas ações. De que vale ter uma ferramenta que não sabemos usar? E a que ponto chegamos ao idolatrar e exacerbar produtos que estarão obsoletos na hora seguinte? A isto podemos apontar dois possíveis ‘culpados’: John Maynard Keynes e a crise de 1929. Ou, se preferir, pirâmides e lâmpadas…

    Quase todos os conceitos modernos que regem nossa atual economia foram forjados na década de 1930: Keyes, famoso economista da época, apontou o caminho para a saída da crise que então abalava não só os EUA como grande parte do mundo. Num conceito explicado de forma simples, a solução seria o investimento pesado em obras públicas por parte do Estado, para ter que buscar mão de obra e por consequência, investimentos da iniciativa privada. Keyes ainda afirmou que a inspiração para este plano veio dos antigos faraós, que em épocas de seca ou comida escassa, mandava construir pirâmides para manter as pessoas ocupadas (ao mesmo tempo que rezava para algo acontecer, lógico). Mas o que o faraó fazia era investir, e a maioria não investe em épocas de crise, por isso a crise se agrava (segundo o molde capitalista de ser). E se o próprio Estado não acredita e não investe, o que se dirá da iniciativa privada? Este contexto teve na década de 1930 inúmeras variáveis, chegando a gerar inclusive Estados ultranacionalistas, e o resultado desta busca exacerbada pela retomada da identidade, do nacionalismo, do patriotismo, foi a 2ª Grande Guerra Mundial em 1939.

    E para arrebatar, temos o exemplo da lâmpada. Hoje, temos tecnologia para fazer uma lâmpada que dure décadas. A questão é: Por que fazer uma? Quantas pessoas ficariam desempregadas se as pessoas comprassem uma única lâmpada na vida? Isso explica também o fato de não vermos Ford ‘bigodes’ até hoje andando por aí. Isso se chama obsolescência programada: a ideia não é durar, por mais que isso seja bom para o consumidor e para o planeta. E o consumidor deve ser convencido disso (mas não alertado). Já pensou se Steve Jobs lança o IPod definitivo? Quebraria a Apple. O diretor da Sony disse certa vez que possuía 3 linhas de produção para o Walkman: uma para produzir o Walkman, outra para trabalhar em melhorias para o Walkman e outra para tornar o Walkman obsoleto com a criação de outra tecnologia a suplantá-lo. Somente com estas três funcionando e competindo juntas, o aparelho seria realmente competitivo. E se a terceira ‘ganha’ a disputa, ou seja, surge uma nova tecnologia, rapidamente a produção em vigor cessa, e todo o suporte ao consumidor desaparece com o aparelho. Parece mentira, mas esta é uma verdade inquestionável.

    Para fechar o raciocínio, temos abaixo o excelente documentário ‘O fim das coisas’, da americana Annie Leonard:

    O fim das coisas

    Para meus queridos alunos: Façam uma última resenha, lendo mais dois artigos (links abaixo) e fazendo um link com a visita técnica do próximo sábado (por isso a demora em postar este artigo). O período de entrega é 14/12/2010 (último dia da AV3). Bons estudos!

    Link adicionais:
    Keynes e a superação da crise

    Obsolescência Programada: Marcos Martire e João Manuel Maio

COMMENTS

1 Response to CAMD–Aula 06 (FINAL) E o que fica? Sobre pirâmides e lâmpadas

  • Kika_bh wrote on December 3, 2010 at 12:05 //

    Sou uma fã incondicional desse professor fantástico!! Adorei o post !
    saudades da sua pessoa e das suas aulas !

    bjussss

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