A JORNADA DO HERÓI (RESUMO) – CHRISTOPHER VOGLER

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    Quem está familiarizado com minhas aulas, sabe que dou uma importância gigante para os sábios ensinamentos do livro o Herói de mil faces, do Joseph Campbell. Mas eu acabo usando em particular um resumo da jornada do herói feita por Christopher Vogler em seu livro a Jornada do Escritor.

    Pois bem, depois de muitos anos, finalmente consigo fazer uma ilustração/infográfico para a minha aula. Taí! Podem usar à vontade, desde que me creditem como autor da imagem.

    A jornada do Herói - Christopher Vogler
    A jornada do Herói – Christopher Vogler

    Para quem não sabe, Vogler usou largamente esta estrutura para auxiliar os roteiristas a escreverem melhor suas histórias. Melhor: mais do que uma receita de bolo, a estrutura parece lidar com algo ‘mais místico’: Afinal, quem não consegue olhar para a jornada do herói e se reconhecer nos seus passos? É como se o ciclo da vida em si estivesse, de alguma forma, escaneada. É verdade que a estrutura vem do modo grego mais clássico de contar histórias. E o que é uma narrativa, senão o ato de conectar dramaticamente eventos?

    Agora, um resumo da Jornada do Herói, através dos 12 passos clássicos.

    1. Mundo Comum – neste começo, tudo é normal. Chato, até. Até que surge um Arauto e conta ao Herói que existe um desequilíbrio na história. O começo em uma certa fazenda dos Skywalkers é um excelente exemplo. Aliás, é inevitável falar de Star Wars – Uma nova esperança, já que o nosso amigo George Lucas o montou todo sobre a jornada do Herói =]]
    2. Chamado à aventura – Já que estamos em Star Wars: a mensagem holográfica enviada pela princesa Leia ao velho sábio Obi Wan Kenobi, transmitido pelo dróide R2-D2 (neste caso, o Arauto da história). O Chamado à Aventura estabelece e deixa subtendido qual seria a missão real do herói: conquistar o tesouro ou o amor, executar vingança ou obter justiça, realizar um sonho, enfrentar um desafio ou mudar uma vida.
    3. Recusa do Chamado – Medo – hesitação. A essa altura, em Guerra nas estrelas, Luke (o Herói) recusa o Chamado à Aventura que lhe faz Obi Wan (Mentor), e volta para a fazenda dos tios, onde descobre que eles foram atacados pelas tropas do Imperador. De repente, Luke não hesita mais e fica ansioso para sair em sua busca. O mal causado pelo Império passou a ser uma questão pessoal. E ele fica motivado.
    4. Encontro com o Mentor – A função do Mentor é preparar o herói para enfrentar o desconhecido. Pode lhe dar conselhos, orientação ou um equipamento mágico. Aliás, é função do Mentor sempre presentear nesta etapa com um amuleto que reitere a jornada do herói. Obi Wan, em Guerra nas estrelas, dá a Luke o sabre de luz que foi do pai dele. Mas pode ser um escudo, uma capa de invisibilidade, um anel…
    5. Travessia do Primeiro Limiar – Este é o momento em que a história decola e a aventura realmente se inicia. A música-tema aumenta, o navio faz-se ao mar, o romance começa, o trem parte. E Han Solo sai daquele seu jeito desgovernado com a Millenium Falcon…
    6. Testes, Aliados, Inimigos (ou, na minha opinião, a fase do boteco) – É impressionante perceber que quase todo filme tem uma “fase do boteco”. Até o Frodo em O Senhor dos Anéis achou um! Mas essa obsessão pela farra tem uma explicação: se você fosse para um mundo aberto, cheio de perigos, o que você faria? Tentaria socializar primeiro, claro! Não vamos para onde as feras atacam, vamos ao lugar onde elas bebem e socializam! Não é um conselho sábio? Em Guerra nas estrelas, a cantina é o cenário de uma aliança fundamental com Han Solo, e de uma importante rivalidade com Jabba, o Hutt, que vai à forra, dois filmes depois, em O retorno de jedi.
    7. Aproximação da Caverna Oculta – Finalmente, o herói chega na fronteira de um lugar perigoso, por vezes subterrâneo e profundo, onde está escondido o objeto/objetivo de sua busca. Aqui ele percebe a fria onde ele se meteu, e de como ele é pequeno diante do perigo iminente. Aproximação da Caverna Oculta esta? representada quando Luke Skywalker e seus companheiros são sugados para dentro da Estrela da Morte, onde vão enfrentar Darth Vader e libertar a princesa Leia.
    8. Provação – Aqui se joga a sorte do herói, num confronto direto com seu maior medo. Ele enfrenta a possibilidade da morte e é levado ao extremo numa batalha contra uma força hostil. A Provação é um “momento sinistro” para a platéia, pois ficamos em suspense e em tensão, sem saber se ele vive ou morre. O herói, assim como “Jonas”, está “no ventre da fera”. Em Guerra nas estrelas, é o momento terrível, nas entranhas da Estrela da Morte, em que Luke, Leia e seus amigos são aprisionados no triturador de lixo. Luke é puxado para baixo pelo monstro que vive no esgoto, e é mantido tanto tempo lá dentro que você começa a se perguntar se ele morreu. Toda história necessita de um momento de vida-ou-morte, no qual o herói está frente a um perigo mortal. Se o filme construiu bem a empatia do herói, o público sofre muito nessa hora.
    9. Recompensa (Apanhando a Espada) – Após sobreviver a morte, derrotar o dragão ou liquidar o Minotauro, o herói tem motivos para celebrar; ele pode se apossar do tesouro que veio buscar, sua Recompensa. Por vezes a “espada” é o conhecimento e a experiência. Por muitas vezes, é a primeira noite de amor de um casal. Em Guerra nas estrelas, Luke salva a princesa Leia e captura os planos da Estrela da Morte, fundamentais para derrotar Darth Vader.
    10. Caminho de Volta – Mas o herói ainda não conseguiu sair do local hostil, ou ele deixou pontas soltas na sua fuga. Estamos passando agora para o terceiro ato, no qual ele começa a lidar com as consequências de ter-se confrontado com as forças obscuras da Sombra. Se ainda não conseguiu se reconciliar com os pais, os deuses, ou as forças hostis, estes podem vir furiosos atrás dele. Algumas das melhores cenas de perseguição surgem nesse ponto, quando o herói é perseguido no Caminho de Volta. Aqui, o herói percebe, então, a sua ‘falsa recompensa’. Se mente, é desmascarado. Se está em negação, é hora de assumir de vez que ele tem ‘uma tarefa a cumprir’.
    11. Ressurreição – Muitas vezes, este é um segundo momento de vida-ou-morte, quase uma repetição da morte e renascimento. A sombra faz um último movimento desesperado, antes de ser finalmente derrotado. O herói está mais sisudo, mais comedido, e mais determinado na sua missão. É comum ouvir da boca dele expressões como “há algo que eu tenho que fazer”; ou mesmo “há algo que eu tenho que fazer sozinho”.
    12. Retorno com o Elixir – O herói retorna ao Mundo Comum, mas a jornada não tem sentido se ele não trouxer de volta um Elixir, tesouro ou lição do Mundo Especial. Algumas vezes, o Elixir é o tesouro conquistado na busca, mas pode ser o amor, a liberdade, a sabedoria, ou o conhecimento de que o Mundo Especial existe, mas se pode sobreviver a ele. Outras vezes, o Elixir é apenas uma volta para casa, com uma boa história para contar. Luke Skywalker derrota Darth Vader (por enquanto) e restaura a paz e a ordem na galáxia.

    No final desta jornada, vale destacar: se o herói volta com algum elixir, trata-se de uma aventura, uma jornada com começo, meio e fim, no qual todos os personagens saem transformados. Se ele não leva lição alguma aprendida, o herói está fadado a repetir a aventura (muitos filmes do gênero comédia usam esse final, quando um personagem tolo se recusa a aprender sua lição e embarca na mesma bobagem que o meteu em trapalhadas da outra vez). Mas o melhor é quando você está assistindo um filme onde o herói MORRE. Qual o sentido de uma jornada imensa, se o herói morre no final? Simples. Ele não morreu em vão: o herói morreu para ensinar algo a VOCÊ, incauto e imaturo expectador. E você sai do cinema em frangalhos, achando que a vida não presta. A esse filme, damos o nome de drama. E a arte imita a vida, e vice versa. É por isso que gostamos tanto de filmes: é um paradoxo entre viver experiências que nunca viveríamos, e experimentar trechos de nossa própria vida através dos ângulos de um estímulo audiovisual.

    Espero que tenham gostado! Depois, faço um update com os arquétipos que norteiam a jornada do herói.

    La Carretta













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