PATHÉ-BABY, O PEQUENO NOTÁVEL DE 9,5MM QUE AJUDOU A SALVAR O CINEMA

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    Na tentativa de aumentar ainda mais a produtividade de um aparelho amador, surgia a surpreendente bitola de 9,5mm, feita a partir de três cortes sobre a película de 35mm. Filmava-se mais com menos, e para não sacrificar tanto a largura do frame de projeção, os irmãos Pathé trouxeram uma das inovações mais estranhas da história do cinema: perfurações no meio da película, uma apenas entre cada frame. Cunhada de Pathé Baby, a máquina foi lançada em 1922. 
    Rapidamente aceita pelo mercado europeu, a simpática câmera trazia o slogan Le Cinéma Chez Soi (O cinema em casa). Um extenso catálogo, incluindo desde Chaplin, animações do Gato Félix aos filmes de montanha alemães agora encontravam-se disponíveis para venda e locação pelo diminuto formato. Sua película (também com base em acetato) era bem prática, e vinha condicionada em uma espécie de cartucho metálico, o que evitava o contato direto com as mãos. Dois anos depois, lançava-se uma câmera para o espectador doméstico produzir seus filmes em 9,5mm. Mais tarde foi adicionada a capacidade de banda sonora, o que deixava o frame de exibição praticamente um quadrado equilátero. 
    Vista com ressalvas pelo mercado norte-americano, o formato cativou os franceses. Em 1924 formava-se também uma das primeiras associações para entusiastas, a Societé Française du Pathé Baby, na Rua Layafette 20, Paris. Em 1930, criariam a primeira filmoteca do formato, com seu acervo catalogado em livro. Tal entusiasmo justificava-se: A Pathé nos anos 1920 firmava-se com uma das melhores distribuidoras de filmes do mundo, e a França podia graças ao pequeno formato ver o que estava sendo produzido no cinema do mundo. Encontrar para assistir em casa filmes como Napoleon (1927), o longo filme (9 horas de duração)! de Abel Gance, era um deleite. Ou seja, o fenômeno pode ser entendido como um precursor do que foi o DVD para a geração dos anos 2000 (devidas considerações guardadas, como preço dos aparelhos, filmes e a técnica do manuseio destes). Há tempos então pessoas querem possuir seus filmes favoritos, caçando-os como se fossem borboletas.
    Graças ao formato amador (e em especial o 9,5mm), surgiam então os primeiros entusiastas do cinema, que começavam sistematicamente guardar filmes. Henri Langlois, conhecido colecionador, formou o Circle du Cinema, realizando exibições regulares em Pathé-Baby na impossibilidade o acesso o filme original. O acervo de Longlois, com seus filmes em diversas bitolas, seria a base da cinemateca francesa, umas das primeiras do mundo. Várias pessoas em países distintos seguiram seu exemplo, inclusive o Brasil: parte dos raros filmes de Fritz Lang, Chaplin e Robert Wiene foram vistos em 9,5mm pelo Clube de Cinema de São Paulo, base da Cinemateca Brasileira, fruto do esforço de colecionadores como Paulo Emílio Salles Gomes.
    O Pathé-Baby podia ser apenas um aperitivo, um pastiche para o filme original, segundo sua concepção. Mas acabou tendo fundamental papel na salvaguarda do cinema do mundo, mesmo sem querer. Ainda com certo prestígio no pós guerra, acabou travando uma guerra particular com a Kodak e sua bitola em 16mm, e sucumbiu de fato com o 8mm da mesma empresa. Mas até hoje tem admiradores na Europa, certos da sua contribuição para a memória afetiva de suas famílias.
    Fontes:

    Encyclopedia of Early Cinema, Por Richard Abel
    Societé Française du Pathé Baby, In:http://cinematographes.free.fr/pathe-baby-societe.html
    The Dvd Revolution: Movies, Culture, And Technology, Por Aaron Barlow

    Cinemateca Francesa, In: http://www.cinemathequefrancaise.com/

    Enciclópédia do Cinema Brasileiro

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