AULA INAUGURAL – A SENSAÇÃO DE PODER

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    Começamos nossas aulas com a adaptação curta de um texto famoso, de Isaac Asimov. Chama-se A sensação de poder. Nada melhor do que um dos maiores pais da ficção científica para começar nossos estudos. Muita gente considera o gênero ficção científica como a reflexão da projeção da vida cotidiana; em suma, a ficção científica estaria para nosso estudo assim como a filosofia está para a vida como um todo. É um simulacro para se entender nosso papel no mundo, e de que jeito estamos lidando com nossas máquinas, essas nossas extensões do intelecto. Bom, vamos para a história.
    O que quero dos meus alunos: Leiam, reflitam e escrevam um pequeno texto para trabalhospara@lacarreta.com.br, se apresentando em um parágrafo inicial, escrevendo sobre suas experiências nesta área que estamos estudando, suas expectativas desta disciplina e considerações sobre este primeiro texto.
    Sejam bem vindos!

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    “Em meu conto “A Sensação de Poder”, publicado em 1957, lancei mão de computadores de bolso, cerca de dez anos antes de tais computadores se tornassem realidade. Cheguei mesmo a considerar a possibilidade de eles contribuírem para que as pessoas acabassem perdendo a capacidade de fazer operações aritméticas à maneira antiga.” (Introdução – Isaac Asimov)

    A sensação de poder 

    Quando o velho técnico foi chamado pelo chefe dos programadores para uma reunião, não imaginava que o seu passatempo, descoberto por acaso semanas antes, iria causar tanto rebuliço. Nessa reunião, estavam presentes o presidente e generais, e o técnico nunca havia visto tanta gente importante na vida. Sem muita conversa, o programador perguntou ao técnico, na frente de todos:

    – Quanto é nove vezes sete?
    – Sessenta e três, – murmurou o técnico.
    Foi um espanto. Todos sacaram seus computadores de bolso e conferiram a resposta. Seria o velho técnico um ilusionista? Como aquele homem podia copiar o resultado que o computador processava? Pediram explicações. O técnico falava pacientemente que havia ‘bolado um jeito’ de calcular usando o cérebro. Alguns debochavam, outros entendiam aquilo como uma piada de mau gosto. A seguir, pediram mais provas. Para grandes cálculos, o velho usava um bloco de papel. Extraordinário, um computador de papel! Mas o técnico se apressou em dizer que precisava do papel apenas para desenhar os números.
    Os historiadores explicavam aos presentes que existia sim, havia muito tempo, uma forma de cálculo muito primitiva, e que os homens chegaram inclusive a fabricar computadores e outras coisas do zero. Era uma ciência perdida, mas provavelmente deviam ter existido estas técnicas. De alguma forma intuitiva, o velho técnico havia resgatado esta técnica, e inventou uma forma de cálculo que não fazia uso de computadores. Já os deputados e senadores debatiam com o presidente sobre a importância do invento: Por enquanto, não havia nenhuma utilidade, mas isso apontava o caminho que libertaria a máquina. A guerra, por exemplo: estavam em conflito contra um planeta vizinho, e era uma guerra de computador contra computador. A modernização dos computadores dava uma pequena vantagem, logo ultrapassada pelo outro lado, o que exigia um gasto exacerbado em tecnologia de ponta. Agora, com o ‘cálculo humano’ substituindo o computador – termo que se apressaram em batizar de grafíticos – a vantagem cresceria consideravelmente.
    – Presidente – acrescentaram os deputados – quanto mais pudermos desenvolver estes grafíticos, mais poderemos desviar nosso esforço federal da produção de computadores e de sua manutenção. Assim que o cérebro humano assumir o poder, nossas melhores energias poderão ser canalizadas para procurar a paz, e a influência da guerra nos homens comuns será menor. Isso será mais vantajoso para o partido no poder, É claro.
    O presidente ainda estava com o pé atrás. Não gostava muito da idéia de afrouxar as rédeas sobre os computadores, pois a mente humana era muito caprichosa. O computador sempre me apresenta a mesma resposta para o mesmo problema. Qual a garantia que temos de que com a mente humana seria assim? Ao que um cientista respondeu: – A mente humana apenas manipula os fatos. Não importa se a mente humana ou a máquina faz isso. Elas são apenas instrumentos.
    A reunião acabou com um novo projeto aprovado. O Projeto Número, como acabou batizado, reuniu a nata dos programadores, cientistas e militares. E no meio deles, o velho técnico. Apesar de receber alto cargo e melhor salário, ele não se sentia muito à vontade com aqueles homens, e eles por sua vez não o tratavam em pé de igualdade. Em mais uma das intermináveis reuniões que participava todos os dias, ouviu dos cientistas que a meta era substituir os computadores, já que agora dominavam qualquer equação. Os militares já visionavam naves tripuladas, com humanos calculando grafíticos em tempo real e podendo inclusive corrigir trajetos ao passo que surgem novos problemas. Melhor: um deles sugeriu a idéia de mísseis tripulados por uma ou duas pessoas, o que aumentaria consideravelmente o poder de fogo dos armamentos. Computadores encarecem os projetos, e um míssil tripulado, controlando o vôo, seria mais leve, ágil e mais inteligente. Isso daria uma vantagem que podia significar a vitória.
    – Além disso, cavalheiros – um oficial retrucou – as necessidades da guerra nos obrigam a lembrar de uma coisa. Um homem é mais descartável que um computador. Mísseis tripulados podem ser lançados em maior número e sob circunstâncias que nenhum general empreenderia se usasse mísseis computadorizados.
    Eles falaram sobre muitas outras coisas, mas o velho técnico não queria mais ouvir. Naquela noite, ele se recolheu mais cedo que o habitual, e na intimidade dos seus aposentos, elaborou cuidadosamente sua carta de despedida. Ela dizia o que se segue: “Quando comecei a estudar, isso não passava de um passatempo. Nada mais do que um agradável e prazeroso passatempo, um exercício para a cabeça. Quando o Projeto Número começou, achava que as pessoas fossem mais esclarecidas do que eu e que o que aprendemos poderia ser usado para ajudar a humanidade. Mas agora vejo que ele só será usado para a morte e a destruição. Não posso suportar a responsabilidade de ter inventado isso.”
    Depois, virou contra si o foco do despolarizador de proteínas e morreu instantaneamente.
    Um enterro silencioso, sem muita pompa, seguiu-se na manhã do dia seguinte. Entre os presentes, o programador-chefe que havia descoberto o velho técnico. Mas aquilo já era passado: o técnico tinha dado sua contribuição, mas não era mais necessário. Agora que o projeto já estava em andamento, iria se desenvolver automaticamente até triunfar, tornando os mísseis tripulados uma realidade, juntamente com tantas outras coisas.

    Nove vezes sete, pensou o programador com orgulho, sessenta e três. Não precisava mais que um computador lhe dissesse isso. Sua própria cabeça era um computador. E isso lhe dava uma fantástica sensação de poder.

    Adaptado do conto
    ASIMOV, Isaac. Sonhos de Robô. Rio de Janeiro, Ed. Record, 1991. p. 320/330
    Para ler mais sobre Issac Asimov, leiam Eu, Robô (link do Google Books).

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