CINECLUBE ESTÁCIO BH APRESENTA: UMA ONDA NO AR (HELVÉCIO RATTON, 2002)

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    Uma Onda no ar
    Dir: Helvécio Ratton
    Tempo: 92 minutos
    Ano: 2002
    Sinopse Oficial: Jorge, Brau, Roque e Zequiel são quatro jovens amigos que vivem em uma favela de Belo Horizonte e sonham em criar uma rádio que seja a voz do local onde vivem. Eles conseguem transformar seu sonho em realidade ao criar a Rádio Favela, que logo conquista os moradores locais por dar voz aos excluídos, mesmo operando na ilegalidade. O sucesso da rádio comunitária repercute fora da favela, trazendo também inimigos para o grupo, que acaba enfrentando a repressão policial para a extinção da rádio.

    Ganhador de dois Kikitos no festival de Gramado (ator e direção), Uma onda no ar é o quinto filme de Helvécio Ratton, mineiro de Divinópolis que surpreende indo de filmes leves a fortes, verdadeiros antônimos como Menino maluquinho e Batismo de sangue.

    Ofuscado tremendamente por Cidade de Deus, um dos maiores arrasa-quarteirões da nossa retomada, tive a oportunidade de assistir pela primeira vez Uma onda no ar no Festival de Tiradentes. Em Avant Premiérè, numa praça lotada, chuva fina e a sensação de que realmente o cinema é algo mágico. O festival, para ter a alcunha de primeiro evento cinematográfico do ano, acontece no período mais chuvoso, mas nem por isso têm o seu público reduzido.

    O que pude notar do filme, à primeira impressão, é de um trabalho elaborado de produção. Na ocasião daquele próprio festival, tive o prazer de conhecer o pessoal da Quimera filmes, produtora que auxiliou Helvécio na empreitada. Acostumados a acompanhar filmes da Xuxa e do Renato Aragão (nada contra, mas convenhamos que trata-se de uma militância bem diferente), mostravam-se bem animados com o filme. Suas homenagens ao nascimento de hip hop e à cultura afro são dignas de nota. Porém, como disse no início, foi um filme ofuscado por Cidade de Deus. Na verdade, na época do seu lançamento foi tomado por alguns críticos como um pastiche, uma caricatura, mais um exemplo da expressão ‘cosmética da fome’, uma tentativa frustrada de pegar carona do também violento Cidade de Deus, com sua dura realidade da favela.

    Mas ao meu entendimento, estes ‘atributos’ só ganharam voz pela infeliz coincidência de terem sido lançados mais ou menos na mesma época. Coincidência por terem sido gestados segundo uma mesma lógica, uma mesma dialética. Mesmo assim, considero em Uma onda no ar uma linguagem e uma narrativa própria. Por ter sido produzido em Minas e não no Rio, podemos considerar inclusive uma regionalização da violência, pois em um país de dimensões continentais, é até simplório considerar a realidade da favela como uma coisa heterogênea.

    A criação da rádio é pano de fundo para mostrar o poder de reação de uma comunidade esquecida pelo resto da população. ‘A voz do morro’, slogan dado à rádio Favela, é um exemplo de luta e resistência, e esta rádio teve seu potencial reconhecido várias vezes em prêmios de prestação de serviços à sua comunidade. E a Rádio Favela é mesmo um reflexo da comunidade onde nasceu em 1981, a vila Nossa Senhora de Fátima, localizada no Aglomerado da Serra. Criada por Misael Avelino dos Santos, a rádio teve apoio maciço de sua audiência. Audiência esta que a escondeu em rodízios pelos barracos por décadas; que ajudou a remonta-la nas diversas vezes em que foi fechada pela polícia (umas três), que sobreviveu a uma terrível chuva que a destruiu em 1985. Seu transmissor era à bateria, seu toca-discos à pilha, pois ainda não havia energia elétrica na favela (informação suprimida no filme, mas que denota bem sua vocação à elemento de resistência). Mesmo assim, suas ondas iam para além das fronteiras da favela, atraindo admiradores e principalmente inimigos, que viam um problema naquela rádio que ousava entrar no lugar da voz do Brasil, tão obrigatória quanto hoje. Somente em 1996 foi legalizada, mas, segundo o próprio Misael, ‘nunca amansada’. Tendo uma programação bem peculiar, é uma das rádios comunitárias mais conhecidas da América Latina.

    Se o cinema têm o dom de atrair as massas, a rádio tem o poder de conversar como ninguém com estas. O filme por sua vez é uma homenagem àqueles que mesmo morando em um local tão adverso, conseguem sonhar e tornar realidade este sonho, sem cair nas tentações da criminalidade dada como destino. E a vitória através de um meio de comunicação que por si só já nasceu convicto de sua utilidade enquanto informação às massas, mesmo aquelas iletradas.

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2 Responses to Cineclube Estácio BH apresenta: Uma onda no ar (Helvécio Ratton, 2002)

  • Lorena wrote on August 26, 2010 at 8:31 // Reply

    Para o bem e para o mal, “Uma Onda no Ar”, de Helvécio Ratton, é o contraponto perfeito e inevitável de “Cidade de Deus”. Os dois filmes contam histórias contemporâneas ambientadas na favela. À parte essa semelhança, são opostos em tudo.O filme Uma Onda no Ar, é uma história é sintetizada na trajetória de Jorge, personagem livremente inspirado em Misael um dos criadores da Rádio e o atual líder da emissora.
    Helvecio Ratton e sua equipe viram a história como uma espécie de fábula, algo que nao poderia acontecer jamais. Isso explica a inserção, em “Uma Onda”, de sequências de filme musical, em que os atores desatam a cantar no meio da rua.Por outro lado, o diretor resolveu adotar uma “estética documental” para narrar essa fábula. Optou por fazer um filme sem firulas e sem tecnologia digital. Filmou na própria favela, em super-16mm (quem cópias da peliculas encontram-se nos acervos do CRAV e Cinemateca BRasileira), aproximando-se, nesse aspecto, de uma certa tradição oriunda do cinema novo.
    Outra herança cinemanovista, o desejo de intervenção política, está presente desde a escolha do tema. Ao falar da Rádio Favela, Ratton toma partido automaticamente dos que querem mudar a sociedade a partir de baixo. Se há maniqueísmo, é entre opressores e oprimidos, não entre bandidos bons e bandidos maus, o que já retratado no filme Cidade de Deus, de Fernando Meirelles.

  • Michelly Ferreira wrote on August 28, 2010 at 2:11 // Reply

    Vale apena assistir.

    Como você disse : “faz parte da nossa história”.

    Adorei…

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