CINELCUBE ESTÁCIO BH APRESENTA: O QUARTO PODER (MAD CITY, COSTA – GRAVAS, 1997)

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    Primeiramente, gostaria de ressaltar que este é o primeiro (e talvez o único) filme que lembro mais pelo nome dado pela distribuidora no Brasil do que pelo original. Afinal, Mad City não faz jus ao filme, mas por sua vez O quarto poder resume e sintetiza bem a trama a ser desenrolada pela tela. Tenho que começar esta resenha ressaltando este fato, principalmente porque estamos em um país que tradicionalmente comete verdadeiros absurdos ao rebatizar filmes estrangeiros (que o digam Shane (1953), chamado de Os brutos também amam, e o pobre Woody Allen, com seu Annie Hall (1977), transformado no Brasil em Noivo neurótico, noiva nervosa).

    Mas sobre o título brasileiro falarei após umas considerações sobre a trama e seus protagonistas. A história é uma daquelas bem costuradas, que você jura ter visto em algum lugar, mas não sabe bem onde. Bem, esta história em particular acontece na vida real todo o tempo: a pessoa em questão comete um crime pela primeira vez e meio ‘sem querer’, se vê em um cerco policial que o impede de sair da situação e a própria situação vira circo com a mídia e a opinião popular. Mas este filme em particular na verdade é quase uma remake do filme de 1975 Um dia de cão (Dog Day Afternoon, Sidney Lumet). Neste filme, Al Pacino interpreta o assaltante sem experiência que tenta frustradamente com seu parceiro (John Cazale) roubar um banco. Baseada numa história real ocorrida apenas três anos antes, o assalto que ficou conhecido como o primeiro acompanhado ao vivo pela TV ganhou Oscar de melhor roteiro original. Dizem que talvez por isso O quarto poder não teve o sucesso esperado: a história estava com cara de já vista. Para se ter uma ideia, Um dia de cão foi a quinta maior bilheteria dos EUA em 1975, com 50 milhões de dólares, já O quarto poder arrecadou pouco menos de 11 milhões de dólares, muito pouco perto dos 50 milhões que ele custou.
    Mas os dois filmes se aproximam novamente quando trabalhamos com os elencos: para o papel principal de Um dia de cão, os autores queriam Al Pacino ou Dustin Hoffman (este último quase ficou com o papel quando o primeiro pareceu desistir de fazê-lo). Hoffman acabou sendo o jornalista que induz a notícia a seu favor em O quarto poder. John Wojtowicz, o assaltante da história real que inspirou Um dia de cão, disse ter visto O poderoso chefão (1972) no dia do assalto, filme onde atuam Al Pacino e John Cazale. Já John Travolta, que Nos embalos de sábado à noite (1977) imitava Al Pacino e sua famosa frase ‘Attica![1] ’ dita no Um dia de cão, seria em o Quarto Poder o homem que comete um crime e se vê enrascado. Coincidência ou inserção total da contemporaneidade nas histórias, a ponto de mesclar pela mídia ficção e realidade? Os personagens de Dustin Hoffman e John Travolta se perguntam sobre qual seria o ator a Interpretar a versão para a TV da história contada em O quarto poder. Travolta responde: ‘Mel Gibson’. Hoffman retruca: ‘Mel Gibson não faz nada para a TV’. E o espectador fica com a impressão que perdeu a piada. E perdeu mesmo. O quarto poder é recheado de piadas internas e questões que só quem é do meio entende (jornalista, imprensa como um todo, editores de imagem, cinegrafistas, produtores). Mas a história sobre a ética das pessoas em alcançar objetivos, esta sim, é a questão universal que pauta o filme.

    O título em português insinua que existiria uma quarta forma de poder além do judiciário, o executivo e o legislativo: a mídia. Na verdade, existem muitos teóricos (desde 1828)![2] que atestam essa tese, inclusive colocando este quarto poder sobre os outros três citados, tamanha sua força. Mas, numa era em que as formas de mídia vêm sendo contestadas, principalmente sua força mítica, já que hoje o acesso democrático às formas de produção destas mídias estão por massificar e anarquizar o processo, é um exercício interessante assistir este filme e refletir como então esta mídia pode de fato manipular as pessoas.
    O diretor grego Costa-Gavras é conhecido pelo tom político e de reflexão que imprime aos seus filmes. Fica claro ao ver logo no início do filme a câmera sendo montada como uma arma, e a ‘teia de microfones’ que envolve Dustin Hoffman no fim. Mas a velha pergunta é: somos de fato influenciados pelas mídias que nos cercam ou elas existem desta forma apenas porque as alimentamos para que elas sejam assim? Afinal, numa era de prossumers (consumidores e produtores de informação) não podemos deixar de pensar que agora aumentou nossa responsabilidade sobre a mídia que criamos e consumimos, já que nós, ‘seres mortais’ a produzimos também. E por sua vez, não podemos mais mitificar os semideuses que compõe o olimpo da mídia, já que temos um acesso cada vez maior ao seu meio de produção e percebemos cada vez mais o quanto são humanos, e como bons humanos, cometem muitos erros. Não saiam por aí dizendo que esta questão é particular ao jornalista ou a mídia. Seria no mínimo egoísta com todos os outros meios e profissões.

    Já ouvi falar que muito candidato a jornalista desistiu da profissão ao ver este filme. Ainda bem, porque se achava ingenuamente que o meio jornalístico é um porta voz da realidade, estava na cara que esta pessoa se encontrava em um estado de subserviência total ao meio em que vive. ‘Não despertemos o leitor’, diria Mário Quintana. Afinal, enquanto ele dormir, não questionará, não será perigoso.

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    [1] Attica no filme era referência ao dia 9 de Setembro de 1971. Uma rebelião no presídio de Attica durou quatro dias e terminou com a morte de 39 pessoas, sendo 10 reféns. Esta história, que manchou a reputação da polícia de Nova Iorque, é uma das cenas mais lembradas da história do cinema. Sugerida de improviso na hora da filmagem a Al Pacino, a palavra ‘Attica’ incendiou os atores e figurantes, numa reação espontânea que se estendeu aos espectadores do filme. (FONTE: www.imdb.com; Coleção Cinemateca Veja).

    [2] CADENA, Nelson Varón. “O pai do “Quarto Poder”, http://portalimprensa.uol.com.br/colunistas/colunas/2009/02/02/imprensa365.shtml , ativo em 26 de abril de 2010

COMMENTS

3 Responses to Cinelcube Estácio BH apresenta: O quarto poder (Mad City, Costa – Gravas, 1997)

  • Suzana Luna wrote on April 26, 2010 at 8:10 // Reply

    O que é CINE CLUB ESTÁCIO prof ????

    Bjos!

    PS: adorei o blog!
    Tbm tenho tá?!
    Toskim, mas o q vale é a intenção…
    http://suzanaluna.blogspot.com

  • Marcelo La Carretta wrote on April 27, 2010 at 3:01 // Reply

    Ei Suzana! Agora temos sessão de filmes todo fim de mês, com temas relevantes ao curso de Comunicação. O projeto chama-se CineClube Estácio. bjos! Irei ver seu Blog.

  • Gláucio Moreira wrote on August 2, 2010 at 1:01 // Reply

    Marcelão, tudo bem?
    Esta sessão de filmes será muito bacana mesmo para nós estudantes.

    Valeu, siga meu blog
    http://www.ahobamulti.blogspot.com

    Abraços.

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