EDISON E OS LUMIÈRE USAVAM UMA LOMOKINO… OU COMO FILMAR DA MESMA MANEIRA QUE SE FILMAVA EM 1895

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    Já foram feitas várias tentativas de reviver os grandes dias das câmeras fotográficas e filmadoras antigas. Anualmente, milhares de entusiastas por formatos que não existem mais, em sua maiorias maiores de 50 anos, recorrem a encontros saudosistas. Mas de todas estas iniciativas, a mais assombrosa de todas seguramente é a despertada pela Lomografia. 


    Lomo deriva da câmera fotográfica criada em 1982 pela ex-URSS. O general Igor Petrowitsch Kornitzky, fascinado por uma pequena câmera japonesa, ordenou ao diretor da empresa Lomo Michail Panfilowitsch Panfiloff a fabricação de algo similar. A ideia era “espalhar baratas câmeras ao povo russo, para que registrassem à vontade as maravilhas do mundo comunista.”[1] A Câmera acabou sendo lançada em 1984, mas pequenos defeitos de fabricação a tornaram instável: As fotos por vezes apresentavam borrões, manchas, saturação excessiva e desfoques. Em 1991, estudantes de Viena tiveram contato com o modelo Lomo LC-A. Ao tirarem fotos com a câmera, perceberam “uma estranha beleza” naquilo que parecia ser um defeito: aos poucos, este defeito acabaria se tornando um movimento social, denominado Lomografia
    A câmera ganhou status cult, e voltou a ser comercializada. No verão de 1992, já existia uma Sociedade Lomográfica, e foram escritos dez mandamentos da prática, onde destacam-se dizeres como “A Lomografia não é uma interferência na sua vida, é parte dela”, “Não pense”, “Você não precisa saber o que foi capturado no filme, nem depois”. E o último mandamento é “não leve à sério nenhuma regra. Descubra a sua própria Lomography, esqueça tudo sobre educação, socialização, doutrinas, conhecimento e tudo que você já aprendeu ou não aprendeu sobre fotografia”. O inflamado discurso encerra-se com “A Lomografia é uma diversão surpreendente para a sua vida limitada e vai te iluminar com revelações verdadeiras, simples e maravilhosas”.[2]

    Numa clara referência ao espírito pioneiro dos que se aventuraram primeiro a fotografar, e tentando gradativamente negar os métodos que nortearam sua automação, os entusiastas da prática Lomográfica procuram (até de forma inocente e infantil) resgatar através de um discurso anárquico a autonomia sobre o ato de tirar fotografias. A volta à figura analógica seria a representação à inocência, uma procura pela nostalgia perdida pela revolução digital. Mas uma nostalgia que não lhes cabe a princípio, já que trata-se de um movimento quase que exclusivamentejovem; Seria na verdade uma ode a um passado romanceado e reconstruído por pessoas que não viveram a real dificuldade de fotografar. Ao mesmo tempo, é saudável esta tentativa de libertar-se do automatismo; e graças a este movimento, câmeras fadadas duas vezes ao esquecimento (uma por não funcionar direito, outra por ter sido suplantada) ganham força e ressurgem.
    Naturalmente, o movimento ganhou força também nas filmadoras. Lançada em 2012, a LomoKino é uma câmera filmadora em 35mm à manivela, fazendo uso apenas de uma abertura simples, uma câmara escura e um visor esporte. Moldada nos mesmos princípios da lomografia, a LomoKino apresenta-se em seu release como a “libertação da experimentação cinematográfica”:
    Trazendo o analógico de volta ao mundo cinematográfico, a LomoKino é uma câmera de filmar que possibilita a criação de espetaculares curtas em 35mm. Ela traz novamente à cinematografia o imprevisível e a originalidade da fotografia analógica, que tanto amamos, e oferece algo realmente lindo e autêntico. É uma câmera de filmar analógica que aponta uma nova direção para a experimentação e abre um mundo de novas possibilidades criativas. (..) A LomoKino convida você a abraçar as 10 Regas de Ouro da lomografia. Simples de usar, é a câmera analógica perfeita para a experimentação, então não pense, rasgue o script e agarre sua câmera porque está na hora de fazer filmes fantásticos no verdadeiro estilo lomográfico. Depois de mais de 200 anos de cinema, efeitos especiais de milhões de dólares, estúdios de grande escala e do drama hollywoodiano sem fim, a LomoKino dá a você a chance de voltar as raízes do cinema e testemunhar os primeiros passos da lomografia em movimento. Torne-se um diretor e faça filmes lomográficos com todos os tipos de filme 35mm mas sem som, sem efeitos especiais e sem pós-produção – lomografia em movimento, simplesmente. [3]
    Realmente, é um experiência única filmar com uma LomoKino: trata-se um encontro às escuras, já que não se sabe o que está acontecendo dentro da pequena máquina. De repente, nos vemos forçados a reaprender os conceitos mais simples da exposição fotográfica à luz, e enquadra-se a imagem por puro instinto. A torcida na revelação do material revela-se dupla: primeiro é pelo sucesso da imagem captada, segundo pela destreza do laboratorista a revelar seu filme não convencional em vários aspectos, do técnico ao histórico. Mas o resultado é uma experimentação de fato de um material audiovisual, tal qual Edison e os Lumière faziam em 1895. 
    Mais um dos milhares de objetos que guardaremos como memória afetiva, no milhão  de outras coisas que provavelmente irão se perder pela falta de padronização. Mas ressalta-se que aconteceu com a LomoKino o resgate da plasticidade de se fazer filmes, da descoberta de que ainda podemos produzir artesanalmente filmes e que resulta em tarefa prazerosa ainda produzi-los, elemento-chave que talvez afaste a película do desaparecimento completo. Olhando mais perto, merece atenção a força desta iniciativa, que faz com que modelos ressuscitem da tumba da obsolescência.

    Ps: veja o resultado da minha incursão ao passado: minha filha Sabrina corre pelos gramados de Inhotim em 2012, captada por lentes que podiam estar em 1895.

    Ps 2: Mesagem do YouTube ao postar o vídeo: “Detectamos que seu vídeo pode estar instável. Gostaria de estabilizá-lo?”




    [1]http://www.lomography.com.br/about/timeline
    [2]http://www.lomography.com.br/about/the-ten-golden-rules
    [3]http://microsites.lomography.com.br/lomokino/about

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