EM 1969, A SONY CURAVA ATÉ CÂNCER

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    A Sony em 1969 resolveria um dos maiores problemas de armazenagem do vídeo (o condicionamento da mídia em carretéis) lançando o primeiro produto comercial disponibilizado em cartuchos (cassettes, do francês, pequena caixa), o U-Matic, com ¾ de polegada. O uso de um cartucho também não era novidade: a RCA já o havia demonstrado ao mundo em 1958 em um grande formato para áudio (que falhou). E a holandesa Philips, criadora do cartucho em 1962, deteve uma certa exclusividade de uso até que, por pressão da própria Sony, acabou liberando seu uso.
    Por ter uma qualidade inferior às fitas de 2 e 1 polegada, O U-Matic foi criado inicialmente para dar um suporte maior ao incipiente usuário doméstico, mas serviu para finalmente ‘liberar o profissional do estúdio’. Com sua facilidade de manuseio – apenas colocava-se a fita no aparelho, e uma engenhosa mecânica fazia a fita percorrer seu percurso de forma automática, ao contrário dos complicados carretéis inseridos manualmente – surgia o formato que iria revolucionar de fato a televisão.
    A campanha de lançamento do U-matic da Sony foi exageradamente agressiva, chegando ao absurdo. Em uma de suas peças publicitárias, chega a afirmar que o U-Matic ajudaria a curar o câncer:


    É uma revolucionária forma de comunicação. E se você pensa que não é o suficiente para mudar o mundo – relembre a invenção da imprensa.

    Em vez de palavras impressas, o Sony U-Matic VideoCassette usa imagens e sons da televisão. (..) Se você têm algo a dizer ou demonstrar, é só gravar seu ‘programa’ em um videocassette a cores do tamanho de um livro. Recebendo este ‘programa’, você só precisa inserir a fita e plugar o U-Matic em qualquer TV.

    (..) O uso deste pequeno aparelho acentua as idéias. Pode, em um momento, solucionar um dos principais problemas da conquista do câncer. (grifo meu)(..) Hoje, um a cada três pacientes são salvos. Poderia ser um de dois, se os médicos estivessem apenas atualizados. Com esta pequena máquina, eles podem. Supomos que um especialista em câncer obtém sucesso em um novo tipo de tratamento. Ele não precisa esperar para apresentar um papel em uma convenção futura. Rapidamente, ele gravaria sua técnica em uma U-Matic a cores. Dezenas de cópias seriam feitas e enviadas. Em dias, dezenas de médicos em hospitais e escritórios receberiam a técnica via U-Matic, e a colocaria em prática.

    Conhecimento como uma bola de neve. Você pode ver as possibilidades: Trabalho policial de equipe a longa distância em diferentes cidades. Todos os ecologistas do mundo. Uma explosão da
    comunicação para educação, negócios, indústria. (..)

    Talvez, algum dia, tenha um U-Matic em cada sala de estar. (..) Então assim, aos montes, mudaremos nosso mundo[1].

    O U-Matic, exageros à parte, acabou ao longo de sua existência revolucionando. Não curou o câncer afinal, mas o jornalismo eletrônico, por exemplo, não seria mais o mesmo. Uma de suas múltiplas versões do cassette, de apenas 20 minutos, condicionado em um VT portátil (separado ainda da câmera pela sua complexa mecânica e por pesar ‘apenas’ 10 quilos), permitia tomadas externas instantâneas: não era mais necessário filmar em 16mm, e a velocidade de gravação/reprodução do U-Matic gerava uma rapidez informativa nunca antes experimentada. No Brasil o sistema fez estrondoso sucesso, e até o final da década de 1980 praticamente todas as emissoras, produtoras e escolas possuíam o formato. A Sony, negando a genialidade da própria invenção, sacramentou a morte do sistema com a implementação em 1982 de um sistema superior, o Betacam. E a grandiosa técnica médica descrita no comercial perdeu-se para sempre no cemitério de VTs e Cassettes sem peças de reposição.*


    * Trecho da tese de doutorado do autor, intitulada “Os filmes serão eternamente efêmeros: reflexões sobre a cultura cinematográfica e seu precário suporte” Ainda sem publicação.

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