SOBRE O SENTINDO DE VERMOS IMAGENS

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    “A imagem é algo que vemos.”

    Chega a ser óbvia e estúpida a afirmação, mas ela é no mínimo incompleta, para não dizer equivocada. Nem sempre o que vemos é imagem. Não é bom confundir percepção com interpretação. Aquilo que vemos é um conjunto de estímulos que transcende o meramente visto. Ele é dotado de toda a carga de nossos cérebros. Sabemos que um limão é um limão por uma série de fatores pelas quais o reconhecemos como tal, não simplesmente por vê-lo. Seu aspecto, sua cor característica, são boas indicações que sim, trata-se de um limão. Mas e as milhões de variáveis que fazem o limão ser por muitas vezes confundido com uma laranja, ou mesmo por uma tangerina? E a cultura de cada localidade, que acaba determinando a imagem de um limão totalmente fora do padrão que você e sua comunidade aceitam como tal? Nem sempre é o que parece ser. Na verdade, nunca é o que parece, pois vivemos em um mundo onde nosso olhar manifesta-se de modo particular. Nunca uma imagem será vista por vários da mesma forma, e se todos a enxergam de uma forma só, chama-se isso de convenção – série de fatores culturais e sociais que determinam um primeiro olhar raso, definitivo para o não curioso, preguiçoso, para aquele que lhe basta a primeira impressão.

    Saltemos o exemplo do limão. Vamos para outro. Veja o nosso amigo abaixo:

    O que esta imagem te sugere? Qual é seu nome? Arroba? Sabe o que significa, ou apenas o usa no meio de um endereço eletrônico e pronto?

    Pois fique sabendo que o arroba pode ser muitas coisas, depende da localização. Sua origem é controversa. Uns o colocavam como unidade de medida; outros, como uma evolução do ‘a’ com crase. Sua forma mais antiga apareceu na renascença, ou no oriente feudal. Nada ou pouco sabemos. Arroba no Brasil é unidade de medida, equivale a 15Kg., e é usada no meio pecuário. Mas então, como veio parar no meio do nosso e-mail? Bom, ele significa também ’em’, ou ‘no domínio’. Ou seja, ao digitar o arroba, estamos dizendo que fulano de tal, usando o codinome(@ = no domínio)tal. Vai receber a mensagem. Ultimamente virou ferramenta na guerra dos sexos: No lugar do machista ‘amigos’, por exemplo, insere-se amig@s por conseguir expressar um ‘a’ e um ‘o’ ao mesmo tempo.

    Curiosidades á parte, queria mesmo é dizer os nomes que o nosso indeciso @ adquire em certos países: Na Itália, é chamado de caracol; Nos países baixos, de rabo de macaco; na Suécia, de tromba de elefante, e por aí vai. Criatividade ou interpretação ao seu modo? Não existe resposta, só prova que realmente temos modos de percepção sobre o mundo, e nada pode ser concebido em uma interpretação única e simples, sob o castigo de sermos simplórios.

    Rudolf Arnheim dizia em seu livro Arte e Percepção Visual que ‘o ver’ é uma prática bem relativa: Um marido chega em casa, e mesmo com as luzes apagadas, consegue ‘ver’ sua mulher na cama ao perceber uma sombra escura sobre o travesseiro branco. Ele ‘vê’ isso graças à familiarização daquele aposento – por saber que naquela hora, naquele local, sob aquela coberta e descansando sob aquele travesseiro, só pode ser sua mulher. Apesar das milhares de piadas que me ocorrem no momento para tirar do lugar comum tal cena, não deixa de ser um bom exemplo de descrição de como na maioria das vezes enxergamos não o objeto em si, mas a maneira como concebemos tal objeto.

    Não poderia deixar de citar neste artigo o excelente livro O corpo fala, de Pierre Weil e Roland Tompakow. Partindo da livre premissa de enxergar os sinais que nossos corpos transmitem institivamente para serem ‘decupados pelo mundo’, este livro convida aos leitores à segunda leitura destes corpos, pois, “todo ser humano tem que lidar consigo mesmo e com os outros”. Vejamos algumas informações interessantes:


    Na figura acima, em um primeiro momento podemos perceber que os homens estão flertando, ou seja, tentando uma aproximação com parceiras do sexo oposto. Porém, pela descrição de seus corpos, podemos identificar quem está se dando bem e o contrário.

    O personagem b está de peito aberto. Demonstra confiança. Aponta para ele, sugerindo autoconfiança. Sua perna projeta-se, sabe aonde que pisar. Olha por cima, sua cabeça não está baixa, possui orgulho. Ele notadamente afirma-se ao longo da conversa.

    Já a personagem a está ‘com um pé atrás’. O corpo inclina-se para trás, rejeição. O braço está cruzado diante do tórax, se defendendo mais ainda. Recua um dos braços, punhos fechados, pronto a avançar para se defender se for preciso. Seu sorriso é seco, por educação: talvez para não ser grosseira de todo e fingir interesse ou pequena abertura.

    Em uma linguagem mais obvia, sem convenções sociais, o diálogo estaria assim:

    Já os outros dois personagens estão diferentes. O c está claramente interessado. Seu tronco diz: ‘quero avançar’. As pernas cruzadas para a frente também avançam para ela. A mão afasta o copo, a mulher é muito mais interessante que a bebida. Este copo também o afasta de terceiros, como um cochicho: só o papo com ela interessa.

    E d, por fim, também demonstra interesse. Seu corpo também está para trás, assim como a, mas todo o restante do corpo sugere aceitação. Ela não pode avançar, mas deixa ser conduzida. Seu corpo espelha o dele, aceitando-o (provavelmente adotou esta posição em seguida à dele). Mostrar as palmas da mão para cima, para alguns doutores, equivale ao cortejo feminino. Logo, tirando as vestes das convenções e indo direto ao ponto:

    Incrível, não? Todo o livro desafia o leitor a prestar mais atenção nele e ao que o cerca. É um convite à percepção, sob o risco de se tornar um vício.

    Falando em vício, vale lembrar que nem sempre estamos fadados à primeira leitura, como se nunca quiséssemos ver de forma profunda uma imagem. Principalmente nas representações artísticas esta tentativa de aprofundamento aflora, pois comumente entendemos a arte como a interpretação da ânsia humana em comunicar-se.

    Na arte, não obstante nos deparamos com a seguinte pergunta em nossas mentes: ‘o que o cara quis dizer com isso’? Na verdade, nem ele sabe. Pelo menos na maioria das vezes não tudo o que os outros pensaram, mas isso pouco importa. Umberto Eco afirmou certa vez que o autor deveria morrer depois de concluir sua obra, exatamente para não sofrer deformações interpretativas. O que importa é o que você percebe, o que esta imagem lhe diz agora. E quanto mais você envelhece, munido de elementos culturais, históricos, arquetipais, etc. outra percepção da mesma imagem irá se formar.

    Bom, depois de tantos exemplos do que pode ser visto, convido a todos a ver, então.

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